terça-feira, 13 de agosto de 2013

O filho do seu Amaro

Caminhava, embebecido pela noite, o filho do seu Amaro. O filho partia sozinho em busca de respostas que antes não lhe foram respondidas. Como era imenso o céu que pairava sobre ele. Sentia alguma falta do grande amor que perdera meses atrás, vítima de uma paixão avassaladora que a havia levado para longe dali. Os boatos diziam que ela estava no Piauí. E ele ali, filho, extremamente admirado pelas estrelas. Seu Amaro não sabia mais o que fazer; sabia que seu filho não enlouquecera com a partida do grande amor, porque sempre fôra louco. Mas como podia ele ainda sorrir, sendo vítima dos buchichos das janeleiras do bairro? Seu Amaro não entendia como podia seu filho sentar com os mexeriqueiros plantonistas e colocar-se a rir de si mesmo na companhia dos outros.
O filho do seu Amaro não derrubara uma lágrima. Simplesmente abaixara a cabeça enquanto seu amor negava o amor que ele sempre lhe dera. Ele apenas sorria. E enquanto mostrava os dentes, sua noiva reclamava do seu sempre sorriso. Ele vivia sorrindo. E como ela poderia conviver com alguém que só sabia sorrir? Tal pessoa jamais seria levada a sério. Sendo ela moça séria e direita, comportada e de sandália, não poderia conviver com um risonho. Talvez por isso tenha se apaixonado por um soldado.
Quando ela partiu, o filho do seu Amaro sentiu um vazio. Mas este logo foi preenchido pelo brilho das estrelas que habitavam o céu do interior. Ele nunca tinha se dado conta de quantas estrelas moravam na imensidão do firmamento. Em sua cabeça juntou o brilho de cada uma delas e percebeu que o vazio agora era mais iluminado do que os olhos do seu amor. Descoberto isso, de pronto seu coração sossegou. Mas seu Amaro não sossegava. Sabia que não era normal uma dor de amor se curar tão rápido. Sabia disso porque ainda carregava consigo a dor da partida da esposa. Esta fôra para um lugar mais longe que o Piauí, um lugar de vários nomes, muitos lugares e nenhuma certeza. Uma partida sem volta.
E seu Amaro se preocupava. Puxava qualquer assunto mórbido para conversar com o filho: das tragédias do jornal das oito à queda do dólar. Mesmo assim, diante das mais trágicas histórias, o filho sorria, afligindo ainda mais o pai. Se antes já era louco, o que haveria de ser agora?
Porém, o filho continuava a sorrir. Ria da preocupação excessiva de seu Amaro. Sorria, porque sorrir foi o único remédio que lhe restara, diante de todas as preocupações e desassossegos que antes lhe rasgaram a alma. Entendia que a vida era caminho sem volta. Caminho duro, pesado , mas era o único caminho que existia. Afinal, se podia sorrir, era sinal de que estava vivo... E caminhando. Sorte a dele que no seu caminho existia a noite com suas estrelas a preencher o vazio. Caminhava sorrindo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário