domingo, 10 de março de 2013

O mal do atraso

Se peço para que venhas às sete,
não chegues dez minutos depois,
pois não quero perdê-los
esperando por ti,
ansiando para que estejas magnífico
naquela camisa que te cai tão bem.
Não quero dez minutos de tortura,
angústia que me toma
sem saber de ti,
inventando mil desculpas para teu atraso
e sofrendo por medo de não vires.

Não me torture com teu atraso.
Não me torture com tua ausência de dez minutos,
pois nunca saberemos se aproveitaremos
todo o calor da companhia.
Não sabemos se teremos sempre dez minutos,
e dez minutos sem ti
são meses.

Eu sou muito ocupada
e tu também,
então aproveita-te,
aproveita-me.
Pois é contigo
que quero passar
mais dez minutos.


É por ti que me arrumo dez minutos antes do previsto,
é em ti que meu pensamento está
a cada dez minutos.
E é por isso
que dez minutos,
dez horas
ou dez dias sem ti
são tão longos.

E tudo se resume
e dura uma vida
em apenas dez minutos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Centelha

Cansa.
Sim,
como cansa.
Por um momento a esperança
se esvai,
escapulindo pelas mãos,
coração,
ombros
cansados.
A esperança beira o chão.
E não há luz.

Mas aí
qualquer sorriso
que aparece assim
sem aviso
ilumina todo o saguão.
E um grito forte
brota do peito,
rasga a garganta,
treme paredes:
CONSEGUIMOS!

Parece pouco
tudo o que foi feito,
tudo que se pode fazer.
O passado nos dá
belos exemplos
de como queríamos ser.
E nos esquecemos do que somos,
do que mudamos,
do que salvamos.

Às vezes,
quando tudo parece esgotado
e o cansaço pesa nos ombros,
precisamos ter fé:
no invisível,
no insensível,
ou mesmo num simples sorriso.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Como amar menos




Primeiro, engula-se:
tudo que for seu,
palavras, ações,
tesões,
aprisione dentro de si.
Feche-se.

Tranque qualquer porta,
vede qualquer fresta
pela qual um olhar qualquer possa entrar.
E deixe crescerem arestas.
Assim,
elas rasgam aos poucos
relembrando cada sufoco
daquele muito amar.

Segundo:
sorria.
Sorria para todos
um sorriso sonso
mas não tão morto
quanto quem está por trás.
Bom hálito é essencial.

Terceiro
e não menos especial:
engane-se.
Minta para si
dizendo que não há nada de errado
em não mais amar
por ter amado demais.
Afirme-se,
negando-se o direito de viver.
Desfaleça
antes de cada beijo,
cheiro,
desejo
que insista em fazê-lo amar.

Esqueça de si,
posto que, se não pode mais mais amar,
não se pode mais viver.

Sobre gostar

Semelhante a lambuzar-se
ao olhar para o objeto de desejo,
como se fosse sorvete,
devorando-o aos poucos
e tomando cuidado para não perder uma gota.
Mas não refresca...
Ferve.

Arde qualquer coisa no peito
e o coração bate acelerado
quando sente a energia da coisa.
O desejo é visível aos olhos
e tremular das mãos.

Um ser dominador
invade o ser
e você não se reconhece.
Algo como uma branda possessão
toma-lhe o ser
e você quer,
deseja,
grita
como uma criança mimada
escondida em uma branda face
que não entrega a loucura
que se passa
quando a luz invade a pupila.

E o controle?
Ah, o mundo todo crê
que você está controlada,
e ninguém,
a não ser você mesma,
percebe o quanto está mudada.

Ninguém sabe,
mas você gosta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Amar: verbo insaciável indiscreto

Amar é sentir-se no outro
e sentir cada olhar
como um passo rumo ao paraíso
de canções e aflições
presas num rebuliço
chamado coração.

Inspira cor,
expira dor
a cada passo
que se dá
em busca de qualquer imagem
abraço
e saudade
que se possa registrar.

É sofrer calado
mas não calado o suficiente,
a ponto de mostrar-se
insatisfeito,
infelizmente,
com a ausência do amado.

É dar-se demais,
recebê-lo de menos,
pois o amor é insaciável.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sobre a sutileza de ser

Seja,
Respire esse ar
Que está disponível 
E invisível por aí.
Respire-me.
Esteja,
Ponha seus pés
Nas nuvens e caminhe
Na delicada aura que brota do ser.
Resida,
Morra em si e só para si
Assim como tendo a morrer por você.
Descanse,
Pouse seus braços em estofados e coxas
E embale-se em mim.
Seja
Essa coisa boba assim,
Esbelta assim,
Somente assim
Qualquer coisa
Só para mim.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Outros trapos




E nessa mania de me esbarrar
Em cada olhar que posso ver
E rabiscar o seu olhar
Pra admirar o que você me parecer.
E nessa angústia de cantar
Em plena Augusta
A procurar por qualquer um
Que lembre você.
E a me enrolar
Em meus lençóis
Que antes só cobria a nós
Fervorosos a amanhecer.
E sentir
Qualquer coisa assim
Semelhante a um arrepio
Que só o seu era capaz de me fazer tremer.
E chorar
Pleno sal e sol
A irradiar
Apagando nossas vãs lembranças.
E escrever
Qualquer coisa que vá até você
Que não irá entender
Pois ainda é tolo.
E consolar-me
Em outros braços
Outros trapos
Que não sejam os seus.