sábado, 22 de setembro de 2012

Samba de vontade

A saudade é um bocado de tristeza
que faz bem e mal também,
mas é da nossa natureza
sentir falta de alguém.

E esse alguém
também sente
uma falta de carinho,
uma falta de ter gente
ali dentro do seu ninho.


Já está cansado de ser sozinho,
já está a procura de abrigo
um abraço, um beijinho
e não só um ombro amigo,
mas um aperto de amor.

E de amor e verso-amor
ele vai seguindo com a dor
cansado de ser sozinho
à procura de carinho
e de alguém que também procure
por um pouco de paixão,
um pouco de saudade,
um pouco de felicidade,
um cadinho de amor.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

‎"Eva viu a uva."


Ela viu, nunca comeu,
seu sabor nunca sentiu,
mas ela viu.
Estava posta sobre a banca

longe do alcance de suas mãos,
próxima o suficiente de seu olhar.
Saboreava-a.

A uva ali parada
fôra colhida e posta à venda.
Desejava ser alimento,
seu bom gosto era destinado a isso.
Não percebia a admiração
brilhando de fome nos olhos de Eva,
mas desejava lhe pertencer.

Desejo mútuo,
desejo contido.

Eva controlava-se para
não tomá-la para si.
Continha-se. Massacrava-se.
Salivava.

Ela e a uva ali.
Ambas proibidas de se pertencerem.

Boticário


"Não deveria escrever por você. Não deveria nem ao menos sofrer, imagine então escrever. Mas é o modo que encontro de, sei lá porque, divagar sobre querer ou não você."  

Acho que não.
Acho que não quero.
Acho que não merece.
Acho que não sustento.
Não quero esquecer,
não quero deixar,
não quero deixar
pois não me sustento
por gostar tanto assim de você.
Dane-se.
É assim que é:
no fundo eu acho,
aqui dentro eu quero,
minha mãe acha que mereço,
mas ninguém aposta que eu aguento.
Eu acho que vai
durar o suficiente para logo acabar
e que vai acabar quando
o que durou não mais sustentar.
Querer eu quero,
sempre quis, assim como você,
assim como qualquer um
ser um pouco, talvez um muito
feliz.
Minha mãe te acha o máximo
modéstia a parte, culpa de minha propaganda.
Falei que você era remédio;
se falasse que era droga,
teria que entrar em tratamento.
Isso é vício,
ninguém aposta por isso.
É arriscado,
e gostar assim
já não é tolerado,
nem para você
nem para mim.
Deixe.
Deixe passar.
Mas ajude,
ajude a curar.
Afinal você é o remédio, lembra?
O problema é que
tomei-o em altas doses,
viciei
e agora você é contra-indicado.
Faz-me mal.
Mas, lá no fundo,
me faz um bem danado.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Redescobrindo


“Eu tô tão feliz que chega a doer”. É com essa frase que começo este texto.
Há quem diga que somente as tristezas e desilusões que carregamos no peito chegam a doer. Não penso, muito menos sinto que isso seja verdade. Eu estou sim com dores de felicidade.
Não consigo explicar o porquê dessas dores que sentimos ao estarmos felizes. Tenho a leve impressão que são decorrentes da saudade que fica dos momentos-sorrisos, daqueles breves instantes nos quais o tempo simplesmente pára e tudo o que passa a existir no mundo são bocas e olhos iluminados. Mas... É só uma impressão. O sentimento e a dor pertencem a cada um.


As minhas são do tipo que mencionei acima. E são também daquele tipo de dor de quem é pressionada contra a grade durante 5 horas de show. Aperto, suor, postura incorreta, tudo o que parece extremamente desconfortável. O corpo sofre. Enquanto isso o coração pula, bate, estremece, comemora e se abre ao som de uma voz que, sabe-se lá como, toca-o há 9 anos. Impossível narrar como e o que é essa odisseia de emoções.
Tive a honra de estar presente na maior homenagem já feita à maior cantora do Brasil. Sim, a maior homenagem já feita. Quando digo “a maior” claramente me refiro ao amor que conduziu aquelas vozes presentes no Credicard Hall, em São Paulo. O amor dos fãs da mãe e dos fãs da filha; acima de tudo, o amor da filha. Maria Rita soube o tempo certo para mostrar que suas semelhanças com Elis não são unicamente genéticas; são morais. O respeito com o público, o carinho ao falar da mãe que tão cedo partiu deste planeta, o sorriso e a alegria ao ver que realizou muito bem o dever de levar Elis às novas gerações e de resgatá-la na memória do público mais velho. Maria tomou para si a tarefa de ajudar o Brasil a redescobrir Elis. Tarefa que parecia difícil, ainda mais no chamado “país sem memória”. No entanto, essa tarefa não começou com o primeiro show do projeto “Viva Elis”, em Porto Alegre. Começou quando Maria Rita surgiu no cenário musical, premiada com um Grammy antes mesmo de lançar seu primeiro cd. Muitas pessoas redescobriram Elis ao descobrirem Maria Rita, quando quiseram saber quem era aquela jovem cantora que surgia com suas singularidades e semelhanças.
Não podemos dizer que a missão de Maria Rita é levar Elis ao público mais jovem. Isso é uma missão nossa, de todos nós que valorizamos a cultura brasileira. A missão de Maria é simplesmente e grandiosamente cantar e encantar. Missão muito bem cumprida ora cantando Elis, ora cantando Maria. Só podemos agradecer-lhe por permitir-nos compartilhar um pouco das suas lágrimas, saudades e lembranças. Por presentear-nos com a homenagem realizada e por nos deixar tão felizes com algumas notas, letras e sorrisos. Por nos deixar com aquela dorzinha de felicidade e saudade daquelas quase 4 horas tão breves de música boa.  E, acima de tudo, por dividir conosco a lembrança da sempre viva, presente e marcante Elis Regina.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Respira fundo...

Respira fundo, vai. Desencanta o encantamento e chora o que precisar.
Respira fundo, vai. Sofra até não poder mais; deixa a dor rasgar. Parece que rasgando ela fica mais presente, e quanto mais presente, mais intensa. E quanto mais intensa, mais apaixonada é.
Respira fundo e vai. Caminha mesmo sem saber para onde ir. Deixa-se levar, rasgando e flutuando, como a folha carregada de histórias rabiscadas segue na tempestade.
Vai, respira fundo. Puxa para dentro de si todo o ar que te faz viver; expira toda aquela mágoa que sufoca e aperta dentro do peito.
Respira fundo. E tenta esquecer. Já que não tem mais jeito, tenta esquecer.
Vai...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Para ela
Não bastava apenas aquilo
Não bastava viver intensamente sem conhecer-se, sem conhecê-lo.

Era preciso mais
E para ele o mais dela era imperceptível.
E isso muito era devido a uma alma insensível
Que em seus sonhos pisara sem amor.

Mal sabia ela a dor que afligira aquele peito
Mal conhecia os sonhos desfeitos
E por tal ignorância, insistia em apertar-lhe mesmo sem sentir o antigo ardor.

Pecava por ingenuidade,
Amava uma paixão infantil na qual não se via não amada.
Mas quando a frieza do olhar enregelava seu coração,
Sentia-se sem tango, sem fulgor, sem ação.
E por tal arrepio que sentia ao tocar aquele homem gélido
Insistia em esquentá-lo com beijos cujo calor perdeu-se em polar.

Sabia que era impossível achar o amor que não perdera,
Ainda mais agora que descobria que nunca tivera lhe pertencido.
Mas os bons momentos existiram, relembrando e aflorando em seu peito a esperança
Aquela mesma espera na qual se baseou para corresponder ao sorriso
Que julgara ter sido dirigido só para ela.
Ah se antes soubesse que simpatia
Era sua característica particular,
Não tinha se deixado levar por aquela intensa vontade de amar.

domingo, 6 de maio de 2012

Num parque, com toda a juventude...


Está difícil começar este texto, ainda mais quando uma confusão de sentimentos fazem suas mãos tremerem ao tentar transcrever o que significou o dia 5 de maio de 2012. Até inventarem uma máquina do tempo, sei que não poderei reviver este dia, mas nada me impedirá de relembrá-lo sempre.
São Paulo é a cidade dos meus sonhos, talvez por ter vivido momentos maravilhosos aqui. Apesar de tudo que falam da cidade, vi em SP coisas maravilhosas acontecerem: vi uma mulher comprando comida para dar a um cachorro e a um morador de rua; vi a cultura brasileira ser valorizada por pessoas de todas as idades; vi um céu azul espetacular, resistindo contra toda a poeira que saía dos escapamentos. E ontem vi o que acredito ser a maior e a mais difícil homenagem que uma filha poderia fazer para uma mãe, mesmo sem ter convivido muito com esta. Vi, também, uma das maiores homenagens que um profissional poderia fazer a outro. Ontem vi e sobrevivi a Maria Rita cantando Elis, de uma maneira que só ela teria autoridade para fazer.
Qualquer palavra é pouca para dizer o que foi aquele momento. Com mais de 120 mil pessoas no Parque da Juventude, o momento foi diferente para cada uma delas, a emoção talvez tenha sido parecida. De qualquer maneira, foi estrondoso o respeito que se teve com a filha, com a mãe e com toda aquela energia que circulava e limpava o local onde ocorrera um dos maiores massacres da história. As canções de luta retrataram bem o chão no qual pisávamos e ninguém se calou sobre os corpos que ali se deitaram há alguns anos. As mãos se levantaram e, juntamente com os olhos vidrados da cantora, dirigidos e fixados a um ponto qualquer, todos se concentraram na letra que clamava por justiça.
Ao entrar no palco, percebeu-se que a filha e a cantora estavam emocionadíssimas. Uma, sentindo a leveza pesada da grandiosidade da mãe. A outra sentia a energia daquele público gigantesco que a aplaudia e vibrava com a força e coragem que demonstrava. De qualquer modo, não foi fácil para ninguém. Nem para Maria, nem para o público. Particularmente, para mim foi ainda mais difícil, não sei ao certo o porquê. Canções que eu já entendia, que já me sensibilizaram alguma outra vez, trouxeram à tona todos os sentimentos que eu desejava exprimir e não conseguia. Especialmente “Se eu quiser falar com Deus” e “Romaria”, que me ajudaram a restabelecer um contato que eu estava perdendo com o divino. Enfim, foi um espetáculo no qual se juntaram os sentimentos mais necessários ao indivíduo humano: dedicação, amor, paixão, justiça, fé, esperança e alegria.
Após ”O Bêbado e a Equilibrista”, quando falava da grande mulher que fôra Elis Regina, Maria Rita acertou em cheio. Aliás, seria difícil não acertar. De fato, Elis “não foi só um rostinho bonito e uma voz afinada”, foi uma guerreira. E foi isso o que eu disse e que MR repetiu, me deixando radiante, não nego. Pena que não falei guerreiraS, com um “S” bem grande no final, porque Elis e Maria são. Elis demonstrou sua força em um tempo de torturas físicas, psicológicas, perseguições. Maria demonstrou sua força num tempo muito parecido com o passado, disfarçado de “democrático”, mas com perseguições mascaradas tão duras quanto as outras.
Realmente foi um espetáculo muito além de especial que pude dividir com pessoas especiais para mim. Foi algo necessário, extremamente necessário para a música não só brasileira, e sim mundial; para Elis, para os filhos, para o público, fãs e para mim. Acreditem: ainda existe muito amor em São Paulo.