Há algum tempo venho tentando entender o que é a paixão sem tê-la vivenciado. E o que posso dizer dela, usufruindo de um ponto de vista completamente fora do espaço caótico no qual ela está inserida? Posso dizer que nada sei dizer, a não ser o que pude observar nos últimos dias. Quando digo que nunca me apaixonei, digo porque nunca tive um relacionamento, até agora, no qual a paixão predominasse. Dizer que nunca fui assaltada por calafrios, taquicardia, sudorese, tremedeira, é igual a dizer que nunca fiquei resfriada. Trata-se, apenas, de um mecanismo de defesa nada eficiente contra machucados cardíacos. Então, como alguém se atreve a escrever qualquer coisa sobre aquilo do qual foge? A resposta é simples: não vivenciando a paixão intensamente, posso observar com maior clareza a sua beleza e necessidade.
Como não admirar o brilho nos olhos daqueles que vivem ao meu redor e que foram submetidos a tão doce sensação? Tomo a liberdade de analisá-los, não criticamente, mas sim poeticamente, observando cada palavra que é dita com entonação diferente, rindo de cada divagação, sonhando junto com eles. E, durante alguns segundos, observo as atitudes, percebo o quanto a paixão tornou-se necessária para se ter uma vida saudável.
Quando não estamos apaixonados, acabamos por deixar-nos de lado, descuidamos de nós mesmos e do que fazemos. E é nessa parte do texto que muitos irão dizer: sou um bom aluno, um ótimo trabalhador e não estou apaixonado. Aproveito o ensejo para apontar um dos maiores defeitos da humanidade: achar que a paixão não é necessária para uma boa sobrevivência. É intrínseco do ser humano a necessidade de se relacionar socialmente, e na sociedade escolher o parceiro com o qual continuará sua descendência. Porém, o mais importante é poder ter alguém para poder contar os segredos, falar mal da sua colega insuportável, rir daquilo que os outros não acham graça, mas do qual a empatia apaixonante gargalha, e, acima de tudo, ter alguém para se olhar com um olhar apaixonado. E é para essas pessoas que nos formamos, nos dedicamos; é para encantá-las. É óbvio que existem aquelas pessoas que são tão apaixonadas por si mesmas que recusam a apaixonar-se verdadeiramente. Abstraio-as deste texto, pois tenho esperanças de que elas não são maioria na população.
Por que contestar, então, a necessidade desse sentimento?
Admiro as pessoas, que ao ler este texto, estão suspirando ao lembrar do ser apaixonante. Admiro ainda mais aquelas que estão flutuando no universo, sem se prender à lei da gravidade de qualquer planeta que venha interferir no vôo saudoso. Não é fácil admitir tamanha fragilidade, tamanha dependência da outra metade do beijo; o orgulho não deixa. E é justamente este orgulho que nos faz negar os outros e nós mesmos. É uma pena que muitas pessoas tenham se submetido a este sentimento. Tenho pena destas pessoas e tenho, especialmente, pena de mim, que por diversas vezes utilizei dele para fugir daquilo que tanto desejo: apaixonar-me intensamente.
Com o tempo e com as observações que pude fazer, aprendi a não me negar perante o mundo. Concebi a idéia de me apaixonar para viver. E essa idéia refuta o que estou vivenciando no momento, quando me afasto da paixão para analisá-la. Neste preciso momento não estou vivendo. Na verdade, estou em estado de quase morte, do qual voltarei quando ver alguém especial. E, no entanto, prefiro manter-me nesse estado, delirando perante às imagens que me acompanham e as quais ajudei a formar. São tão bonitas! Satisfaço-me com a paixão que está fora de mim, pois mesmo não sentindo-a, ela me faz bem. E me faz bem porque é responsável pela felicidade de pessoas que amo em demasia.
Alguns me questionarão sobre o motivo de eu não ter usado o termo amor. Explico-lhes: já foi um grande atrevimento de minha parte tentar analisar a paixão, que é um sentimento tão lindo, mas inconstante demais. E, também, a paixão não é igual ao amor. A paixão é mais voraz, e, às vezes, mais eficaz para se conseguir o que se deseja; o amor é um sentimento nobre, nobre o suficiente para que deixemos as pessoas amadas livres para pertencer a um outro alguém. A paixão, pelo contrário, nos convence que somos essenciais para o bem-estar do outro ser. Contudo, na maioria dos casos, o amor surge com a paixão, fazendo desta seu principal complemento. Ele nunca a excluirá, enquanto ela muitas vezes não percebe sua necessidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário